Os Justos

Alberto Camus (2016)

NOMEAÇÕES

Eleito um dos melhores espectáculos do ano de 2016 pelo jornal Expresso e revista Time Out

ONDE E QUANDO

Lisboa: Teatro do Bairro Alto
30 de Março a 10 de Abril de 2016
(11 apresentações)

Movidos por uma permanente inquietação perante movimentos sociais e políticos que observamos hoje como ecos, irreflectidos, de outros tempos, debruçamo-nos sobre a obra de Camus, pela sua discussão ética sobre o indivíduo e o confronto da sua natureza humana com a sua natureza política. Em Os Justos, somos espectadores de um atentado terrorista, e ainda que o não vejamos de facto, conhecemos as dúvidas e hesitações que a dimensão humana atribui à luta por uma ideia. Qual a legitimidade para matar? Qual o limite de uma revolução? Por quem se luta e o que se mata? Será que um fim altruísta legitima o assassinato de um homem cuja única culpa é ser a representação da tirania? Questões com que este grupo de jovens se vê confrontado, questões que nos assaltam também a nós – juventudes separadas por um século, habitantes de um tempo onde a vida humana tem o seu valor posto em causa.

FICHA TÉCNICA/ARTÍSTICA

Criação: Teatro da Cidade
Tradução: António Quadros
Interpretação: André Pardal, Bernardo Souto, Guilherme
Gomes, João Reixa, Nídia Roque, Ricardo Alas e Rita Cabaço.
Cenário e figurinos: Teatro da Cidade com apoio da equipa
do Teatro da Cornucópia

Desenho de luz: Teatro da Cidade com Rui Seabra
Direcção técnica: Jorge Esteves
Construção e montagem de cenário: João Paulo Araújo e Abel Duarte
Montagem e operação de luz e som: Rui Seabra
Costureira e conservação do guarda-roupa: Maria do Sameiro Vilela

FOLHA DE SALA

Nasce o dia num tempo novo. A luz que nos ilumina é forte, e abrangente. Somos iluminados por todos os lados, e não há lugares de sombra – há lugares iluminados por uma luz que não é pura, que nos engana. Nascemos neste tempo marcado pelo terror iluminado por uma luz falaciosa. Nascemos no tempo do medo, do medo generalizado. Num tempo com tanta luz, de tanta ordem, podemos ser facilmente enganados, olhar para o que não importa. E enquanto pensamos cada vez mais na segurança dos nossos próximos, pensamos cada vez menos no que faz um ser humano. Albert Camus antecipou-nos nesta preocupação. Quando escreve Os Justos usa o exemplo de Kaliayev e de Dora para mostrar o verdadeiro pensamento humano: um pensamento sobre a ética, a dignidade, a humanidade, a justiça. Camus pensa com eles, usa-os para humanizar o seu pensamento, pela escrita deixa-nos o esboço de pessoas – processo quase visceral da humanidade que o marca. Ficou, no entanto, uma parte por fazer, uma etapa do processo de humanização das suas ideias que ele não podia concluir: o corpo, a voz, uma cabeça que pensa para cada um daqueles projectos de pessoas de que conhecemos os sintomas do pensamento, mas não o pensamento. É esse o trabalho de um actor quando estuda a obra de Camus, fazer justiça ao processo que o autor iniciou, formar equipa com o seu pensamento. Se Os Justos é tão marcado pela descoberta e discussão destes valores – fundamentais para o Homem – faz sentido apresentar este texto sempre que sintamos que, das duas uma: pensamos muito neles e será bom fazer-lhes um elogio; não pensamos neles e devíamos ser lembrados da sua importância. É esta segunda hipótese que nos leva a estudar a obra com tanta atenção. A nossa realidade torna claro que não se pode falar destes assuntos por entretenimento, é necessário falar a sério da Justiça, da Dignidade Humana, da Ética. É urgente falar destes assuntos, provocar pensamento sobre eles, para que o ódio que o terror nos inspira não nos desumanize. Há cem anos Kaliayev morreu numa luta que triunfaria, para depois apodrecer no seu triunfo – é uma luta ingrata, mas não é uma luta perdida.

Nunca conseguiremos responder à necessidade de Justiça sem sermos em algum ponto injustos, sobretudo se a quisermos impor. Mas a luta pela Justiça está ganha só quando se pensa sobre a Justiça. Lutar pela Justiça não é responder à questão “o que é justo?”, é permanentemente fazer a questão, e ser confrontado permanentemente com a falta de resposta. Este tempo novo que nasce é marcado pelo entusiasmo do pensamento. A emergência de várias companhias de teatro é sintoma disso: grupos de pessoas que se colocam num lugar de reflexão sobre o que as rodeia; grupos de pessoas que optam por dedicar a sua vida a este processo de pensamento que é a arte performativa; grupos de pessoas que encontram no teatro um sentido. Poderá não ser significado de nada, mas são estes grupos, que fazem o início de um século, que podem lançar debates, e formas de debater, que marcam um tempo. O Teatro da Cidade estreia-se com este texto porque é o reflexo da sua formação, daquilo que pretende fazer. A importância do Teatro não se encerra no seu carácter de entretenimento, nem no edifício teatral. Enquanto companhia queremos estar com pessoas de várias áreas, estudantes universitários, pessoas da nossa geração. É urgente para nós pensar com pessoas que têm outras referências, que conhecem um outro mundo – chamar essas pessoas para o teatro, para esta cidade que, como numa cidade grega, é um lugar de discussão. É o sol que nasce num tempo novo. Pela nossa parte temos tudo a agradecer a um grupo de pessoas que tornaram este nascimento possível, pessoas que nos são muito queridas, e que acabam por ser o Teatro da Cornucópia. O nosso profundo agradecimento ao Luis Miguel Cintra, à Cristina Reis, ao Luís Lima Barreto, ao Jorge Esteves, ao Rui Seabra, à Amália Barriga, à Tânia Trigueiros, ao João Paulo, ao Abel, à Linda Teixeira, ao Luís Santos, à Sameiro Vilela, à Gina Barbosa, à Diomar, bem como a Mafalda Ferro, em nome dos herdeiros de António Quadros, Eduardo Breda, Ricardo Dias e Diogo Reixa.

O Teatro da Cornucópia quis apoiar o nascimento desta companhia integrando este espectáculo na apresentação da sua programação. Por amizade. Por confiança. 

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